Na estrada entre Salgueiro e Araripina, o chão ainda guarda poeira fina nas bordas do asfalto. É junho — mês em que, num ano comum, o agreste pernambucano já teria recebido as primeiras pancadas consistentes da estação chuvosa. Em 2026, a maioria dos produtores consultados pelo Farol diz que o plantio de milho e feijão está atrasado entre três e cinco semanas.
Antônio Ferreira, 58 anos, cultiva oito hectares em Bodocó, trabalha a terra há mais de trinta e nunca viu, segundo ele, um maio tão seco quanto o deste ano. "A gente olha pro céu todo dia. Quando vem uma nuvem, a gente para o que está fazendo", conta. Ele gastou em maio cerca de R$ 1.200 a mais do que no ano passado com diesel para bombear água de poço artesiano.
Reservatórios ainda abaixo da média
Dados da CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais) mostram que, até o final de maio, os principais reservatórios do eixo Pajeú–Araripe operavam com volumes entre 18% e 34% da capacidade — patamar inferior à média histórica para o período. A Barragem de Bodocó, referência para abastecimento urbano na região, estava com 22%.
Técnicos ouvidos pela reportagem evitam falar em catástrofe iminente, mas alertam que uma sequência de anos com déficit hídrico acumulado exige planejamento diferente. "Não é só a chuva deste mês que resolve. O solo precisa de umidade profunda, e os aquíferos demoram a responder", explica a engenheira agrônoma Mariana Duarte, que assessora cooperativas no sertão de Pernambuco.
Quando a chuva atrasa, quem perde primeiro é quem não tem irrigação e não tem reserva financeira para segurar até a próxima safra.
Impacto no plantio de grãos
A Secretaria de Agricultura de Pernambuco estima que cerca de 12% da área planejada para a safra de inverno no agreste ainda não foi semeada na primeira semana de junho. O número pode parecer modesto, mas concentrado em municípios menores onde a agricultura familiar sustenta feiras e pequenos comércios.
Na feira de Salgueiro, a cebola e o tomate vindos de propriedades locais subiram de preço nas últimas três semanas. Dona Raimunda, que vende legumes há quinze anos na barraca 14, diz que compra menos para revender: "O produtor cobra mais porque gastou com água. Eu repasso, mas o cliente reclama."
Programas de assistência técnica do estado mantêm mutirões de distribuição de sementes crioulas adaptadas à seca, mas produtores relatam burocracia para acessar linhas de crédito emergencial. Três entrevistados disseram ter desistido de solicitar apoio após esperar mais de 40 dias por resposta.
Previsão para as próximas semanas
O Instituto Nacional de Meteorologia prevê pancadas isoladas para o agreste entre 10 e 20 de junho, com acumulados que podem variar bastante dentro de um mesmo município. Chuva isolada ajuda pastagem e horta de subsistência, mas não necessariamente permite recuperar o calendário agrícola completo.
Em Araripina, a cooperativa COOPATAN recebeu pedidos de adiamento de entrega de grãos de cerca de 15% dos associados. O presidente da entidade, João Paulo Lima, afirma que a situação é gerenciável se chover até o fim do mês: "Se não chover, a gente entra em junho com estoque de ração mais caro e animais magros."
Na atualização desta reportagem, a CPRM informou que chuvas registradas entre 6 e 8 de junho em parte do sertão central não alteraram de forma significativa os níveis dos reservatórios monitorados — reforçando a avaliação de que o alívio, por enquanto, é localizado e insuficiente.