Em Surubim, cidade de pouco mais de 60 mil habitantes a 120 km do Recife, a praça principal já cheira a milho cozido e cana. Barracas de palha estão sendo montadas desde abril. Para muitos moradores, o São João não é só festa — é a época do ano em que sobra dinheiro no bolso depois de meses difíceis no campo e no comércio.
O Farol percorreu três cidades do agreste — Surubim, Bezerros e um distrito de Caruaru com menos de 8 mil moradores — para entender como a temporada junina de 2026 está sendo organizada e quem ganha (e quem perde) com ela.
Dinheiro que circula na rua
Segundo estimativa da associação de comerciantes de Surubim, a festa movimenta entre R$ 4 e R$ 6 milhões na cidade durante junho e julho, considerando bares, hotéis de passagem, venda de figurino e aluguel de equipamento de som. O número não entra em estatísticas oficiais de PIB municipal, mas aparece no fluxo de caixa de quem trabalha na rua.
Cláudia, 34 anos, costura vestidos de chita o ano inteiro e concentra 60% das vendas entre maio e julho. "É quando eu pago as parcelas que atrasei no início do ano", diz. Ela emprega duas vizinhas temporariamente para dar conta dos pedidos de escolas e grupos de dança.
Caruaru e Campina: o peso dos grandes eventos
Nas metrópoles juninas, a escala é outra. Caruaru espera público superior a um milhão de visitantes ao longo do mês, segundo a prefeitura. Campina Grande, na Paraíba, mantém programação que atravessa fronteiras estaduais e gera filas nos hotéis de João Pessoa, a 120 km.
Mas o efeito cascata interessa às cidades menores: turistas que não encontram vaga nos grandes centros desviam para festas de distrito, onde a entrada costuma ser gratuita e a comida é mais barata. Em Umãs, distrito de Caruaru, o prefeito de distrito (cargo informal, eleito entre moradores) conta que a festa de 2025 lotou o campo de futebol duas noites seguidas — algo inédito desde antes da pandemia.
O forró ainda lota praça. Streaming mudou o jeito de ouvir música, mas não substituiu o corpo na roda.
Cultura viva, custos maiores
Artistas locais relatam cachês estagnados desde 2022, enquanto combustível, aluguel de palco e transporte subiram. Uma banda de forró pé de serra de Bezerros disse ter recusado contratos em dois distritos porque o valor não cobria deslocamento com os cinco integrantes.
Ainda assim, a cultura popular segue encontrando espaço. Em Surubim, um grupo de mestres em coco de roda conseguiu verba via lei de incentivo estadual para oficinas em escolas públicas durante maio — preparando o terreno para apresentações na festa.
Na atualização desta matéria, a prefeitura de Bezerros confirmou calendário estendido até 15 de julho, respondendo a pressão de comerciantes que pediam mais fim de semana de movimento.